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maio 30, 2005

David Justino - O ERRO DE FAZER O REFERENDO AO MESMO TEMPO DAS AUTÁRQUICAS

O NÃO francês e o futuro da Europa na Quarta República.

Se tivesse que resumir numa pequena ideia o que se retira do que aconteceu ontem em França, diria que o modo e o ritmo a que se construiu a União dos Estados não pode ser o mesmo a que pretende construir a Europa dos Cidadãos.

Não importa se o que motivou o voto maioritário do Não terão sido outras razões que não as do projecto europeu expresso no Tratado. Não importa especular sobre o papel do Governo francês ou o da Comissão Europeia no empolamento dos descontentes. Importa tão só reconhecer que este não é o tempo, nem o modo para dar mais um passo decisivo na construção europeia.
O sistema de estados europeu tem as suas raízes na Idade Média, afirmou-se decisivamente no século XVI com o falhanço das ambições europeias de Carlos V e consolidou-se com os movimentos nacionalistas do século XIX e XX. Todas as tentativas de construção de uma Europa Unida impostas de cima para baixo, ora através das armas ora de uniões dinásticas, falharam. O que o actual processo de ratificação do TCE representa, desde já, é o anunciado insucesso de uma solução que se pretendia democrática, mas que potencia, pela sua natureza, o risco de dominação burocrática. Tal como as anteriores, de cima para baixo.
Estamos muito longe de concretizar a Europa do mercado único – as reacções proteccionistas à directiva dos serviços ou à salvaguarda do esclerosado modelo social são disso atestado – e muito mais longe estamos da Europa dos Cidadãos. Há uma enorme margem de progressão no actual quadro institucional.
Os calendários definidos quando não se antevia a profunda e prolongada crise em que estão mergulhados alguns dos países europeus e o próprio modelo de desenvolvimento das últimas décadas, subestimaram o potencial de contestação e de reacção. Não querer perceber esta realidade e tentar fugir em frente, poderá, aí sim, constituir um desastre irrecuperável.
É esta mesma reflexão que deveria orientar a estratégia referendária do PS e do PSD. Querer forçar a simultaneidade com as autárquicas é um erro grave que enferma do mesmo autismo e arrogância, agora derrotados em França.

Publicado por JPP às maio 30, 2005 04:55 PM

Comentários

Se porventura o «modelo social europeu», por razões que se prendem com o crescimento económico (muito diferente, por bastante menor e mais frágil, do crescimento do pós-guerra e das "Trinta Gloriosas") for para questionar, e mesmo, eventualmente, des-construir, vamos entrar num período de enorme frustração e desencanto em todos os países europeus. Este «não francês» parece o primeiro sintoma.
E se assim for, o (muito) pior está por chegar ...

Publicado por: asdrubal às maio 30, 2005 05:36 PM

Claro. Mas acha que é por acaso que os partidos democráticos portugueses querem e aceitam um referendo desta gravidade juntamente com as autárquicas?

E, já agora: porquê querer impor uma europa dos povos sem respeitar a europa das nações? Isso fará algum sentido? Porquê impor, como se impôs na França e em Portugal, por exemplo, uma moeda única privando os respectivos países da coluna vertebral das suas economias? Pensar que as nações se podem diluir no conjunto duma entidade heterogénea chamada União Europeia, é pura ilusão: é criar condições para extremismos de direita e de esquerda. Vale a pena reflectir porque é que os povos, quando consultados, rejeitam a moeda única e o banco central europeu, por exemplo.
Vale a pena pensar porque é que nesta votação os franceses rejeitaram massivamente a ideia das negociações para a entrada da Turquia. Vale a pena pensar porque é que a Holanda rejeita a entrada da Turquia e o euro - razões maioritárias dos que afirmam ir rejeitar o tratado depois de amanhã, e que parecem a maioria segundo as sondagens. Não compreendem o tratado? Serão todos xenófobos e incapazes de compreender as razões da Europa?
Ao verem os resultados do "non" francês, os presidentes do Conselho e da Comissão disseram que somos 25, vamos continuar, far-se-á o balanço final no fim do processo de ratificação de todos os países. Não é isto a prova provada de que a nação não conta neste desígnio de europa política, unida, forte e poderosa no mundo? Quem é que disse que os europeus querem a europa dos povos em deterimento da europa dos países?

Há que parar. A Europa Unida só o será no dia em que seja impossível separar União Europeia de Nação. E há que pensar que, para isso, a Europa não pode ser um hall de estação onde cabe qualquer um, por mais asiático que seja - a Turquia, por exemplo. Porque os europeus não querem que todos pertençam à mesma casa, sobretudo os que não são europeus, vê-se. Os democratas têm que respeitar, sobretudo se lhes pedem opinião.

Teresa Ribeiro


Publicado por: Teresa Ribeiro às maio 30, 2005 06:44 PM

Gostaria de pedir aos políticos portugueses em geral que tivessem um pouco mais de cuidado no uso do termo "autismo" pois, caso não lhes tenha passado pela ideia, há neste país alguns milhares de pessoas a quem poderão magoar com a constante repetição deste termo. Refiro-me, obviamente, às pessoas portadoras do espectro autista, seus pais, irmãos, etc...
Obgda pela atenção.

Publicado por: João Guimarães às junho 3, 2005 01:00 AM

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