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junho 03, 2005

Ricardo Prata - O DISTANCIAMENTO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Na sequência do "Não" nos dois referendos realizados esta semana, sobre a Constituição Europeia, têm sido realizadas diversas análises sobre o distanciamento entre as classes políticas europeias e as populações por elas servidas.

Parece-me que, pese embora a pertinência dessas análises, há outro aspecto que tem sido ignorado. Não conheço o caso holandês, mas em França houve um esmagador apoio do "Sim" por parte da comunicação social. Pelo que se lê na imprensa internacional, a esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social de referência assumiu uma posição clara em favor do "Sim". Essa posição reflectiu-se não só nos textos de opinião, como na linha editorial. Também aí, os defensores do "Sim" eram vistos como visionários, pessoas de coragem e dotadas de grande altruísmo. Os defensores do "Não", pelo contrário, eram uma massa anónima de descontentes com o governo, xenófobos e retrógrados. É surpreendente que, perante este cenário, e tendo os "media" a importância que têm na formação da opinião pública, o "Não" tenha vencido.

Em Portugal, os "media" seguem a mesma linha. Os defensores do "Não" - que os há em número significativo - não se vêm representados na linha editorial seguidas pelos órgãos de comunicação social.

Embora não me sinta competente para realizar essa análise, não haverá nesta matéria um distanciamento entre os órgãos de comunicação social e as populações, estando os primeiros muito mais próximos das classes políticas? E, havendo esse distanciamento, não existirá também noutras matérias?

Publicado por JPP às junho 3, 2005 11:48 PM

Comentários

As diversas análises têm na realidade insistido na tecla do distanciamento entre as classes políticas europeias e as populações que representam e que devem supostamente servir.
Parece-me que seria um exercício curioso tentar compreender o porquê desse distanciamento. Não serão as políticas de “plástico” que têm de servir a toda uma Europa, que se algo de realmente genuíno e puro possui é a sua diversidade, que o estão a provocar?
Não será este distanciamento apenas um reflexo daquilo que separa o que os políticos tentam realizar nos seus países, apoiados no conhecimento intrínseco da realidade sua terra e o que Bruxelas pretende e obriga a fazer? Quem consegue vender um “produto” sem acreditar nesse mesmo produto?

Em relação à segunda parte do texto, parece-me que todos os media estão e estarão sempre a favor do sim pela razão mais simples: é o lado do poder
A tentativa de rotular os defensores do não de extrema (direita ou esquerda), xenofobia, etc., só será verdade para quem acreditar que 55% dos franceses e 60% dos holandeses o são.
As razões, a meu ver, prendem-se com algo fundamental:
Nenhum povo sabe qual a sua verdadeira identidade nem pode projectar o seu futuro sem saber de onde vem.
É este saber de onde vem, qual o seu passado, que os povos da Europa não querem e sabem que não podem perder, sob pena de se transformarem numa massa inerte e não pensante que será facilmente anulada. A Europa é feita de diversidade, de lutas por independência, por justiça, pelo direito do povo ser diferente na França, na Alemanha, em Portugal...
O povo Europeu conhece o seu passado e tem orgulho nele.
É por isso que continua a dizer não.
Foi por isso que em algo tão aparentemente “fútil” como o Euro2004 se viu este país vestido com as cores nacionais de Norte a Sul. É o orgulho de um povo a dizer que pertence a um país (foi Portugal mas poderia ser outro qualquer), que o assume com todos os seus defeitos e todas as suas virtudes.
Uma união de estados da Europa (com o objectivo de a tornar mais forte a nível comercial, político ou até militar) não implica a criação dos estados unidos da Europa

Publicado por: Xelb às junho 4, 2005 01:41 AM

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